Poderá a resposta política à Covid-19 conduzir a um ressurgimento da inflação?

2020-08-11

Os bancos centrais estão a cunhar moeda, e os governos estão a inundar a economia com dinheiro fresco. Os níveis de endividamento público são extremamente elevados. Não é de admirar que os investidores tenham começado a questionar-se se poderemos vir a assistir a um ressurgimento da inflação.

Inflação durante o período de confinamento

A inflação é causada por um excesso da procura em relação à oferta, quando há demasiado dinheiro para a aquisição de poucos bens. As perspetivas em relação à inflação dependem, assim, da forma como a Covid-19 está a afetar tanto a procura como a oferta.

Tanto a oferta como a procura diminuíram durante os períodos de confinamento, mas a procura diminuiu pelo menos tanto quanto a oferta na maior parte das categorias essenciais, dado que as medidas de contenção decorrentes da crise provocada pelo vírus levaram a uma redução drástica do consumo privado. Esta dinâmica levou a um período de desinflação.

A queda do preço do petróleo provocou igualmente uma queda da inflação global. Dado que o setor energético representa cerca de 5-7% do cabaz de inflação na Europa e nos EUA, não é de admirar termos assistido a uma queda da inflação global para valores próximos de zero. No entanto, numa altura em que os preços do petróleo já começaram a recuperar, o pior parece já ter passado.

Regresso a uma nova normalidade

À medida que o confinamento vai sendo levantado, é plausível que venhamos a assistir a um ressurgimento da inflação. Consoante a proteção que tiver sido conferida aos seus rendimentos e postos de trabalho, os consumidores poderão vir a aumentar a procura. Do lado da oferta, as empresas poderão vir a ter dificuldade em recuperar rapidamente a capacidade até atingir os níveis anteriores. Como consequência, qualquer retoma da procura poderá ultrapassar a recuperação da oferta, tornando-se inflacionária.

No entanto, este resultado dependente grandemente de medidas governamentais que consigam, pelo menos, neutralizar o impacto da Covid-19 nos rendimentos dos consumidores e minimizar o desemprego de longa duração. Caso contrário, poderemos vir a assistir a uma perda mais duradoura da procura, que poderá provocar o surgimento de inflação subjacente.

A lei do equilíbrio a longo prazo

A longo prazo, o que importa é a forma como os decisores políticos trabalharem para equilibrar a oferta e a procura. A dimensão da resposta política poderá fazer com que a procura aumente mais do que a oferta, levando à inflação, caso os políticos exagerem nas medidas de estímulo ou não tirem o pé do acelerador na altura certa.

O facto de os bancos centrais e os governos trabalharem em conjunto também acarreta eventuais riscos inflacionistas. Na sequência da crise financeira de 2008, os bancos centrais trabalharam em grande parte sozinhos, pois houve uma série de fatores que contribuíram para reduzir a eficácia da flexibilização quantitativa, como a relutância dos bancos em conceder crédito, o agravamento das medidas de controlo regulamentar e a concentração da riqueza nas mãos de quem tem menor propensão para consumir.

O endividamento privado também tinha aumentado muito antes da crise, e os governos, posteriormente, endividaram-se ainda mais para apoiar o sistema financeiro. Isto levou a uma significativa desalavancagem das famílias e à implementação de medidas de austeridade no setor público.

Hoje em dia, os defensores de uma política orçamental restritiva estão em minoria. A expansão orçamental foi enorme (ver gráfico). Enquanto isso, o endividamento privado está muito melhor situado em relação aos rendimentos pré-Covid.

Se os governos mantiverem as torneiras abertas, a questão será saber se os bancos centrais irão aplicar medidas restritivas atempadamente, de acordo com a evolução da inflação. Estamos em crer que é provável que, nos próximos anos, os bancos centrais venham a privilegiar medidas com base em objetivos de inflação média e que, dessa forma, tolerem um período de derrapagem inflacionista. A Reserva Federal poderá seguir esse rumo já este ano. Embora este regime possa ser perfeitamente sensato, os investidores poderão vir a ficar preocupados, caso essa tolerância aparente abranger mais do que uma inflação moderadamente mais elevada a curto prazo.

Em suma, estamos em crer que a velocidade da base monetária no próximo período de expansão será consistentemente superior. Temos a expectativa de que os bancos centrais continuem a privilegiar um baixo nível de inflação a médio prazo, o que acarreta riscos.

Texto elaborado a 11 de Agosto de 2020 por Informações Millennium bcp.

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